Especialista de um Instituto de Oncologia espanhol afirma que a medicina de precisão é uma das linhas estratégicas para combater o câncer.

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O doutor Tabernero em um dos laboratórios do Vall d’Hebron Instituto de Oncologia (VHIO).

O ano de 2015 se encerrou com 248.000 novos diagnósticos de câncer na Espanha. Muito acima do número previsto para 2020, mas “dentro da expectativa”, tranquiliza o doutor Josep Tabernero, diretor do Vall d’Hebron Instituto de Oncologia (VHIO), em Barcelona. Dentro de uma das grandes trincheiras da pesquisa contra o câncer, como é o VHIO, Tabernero tornou-se um nome reconhecido entre a comunidade científica internacional por suas descobertas. Das suas mãos surgiu uma tecnologia que, mediante uma biopsia líquida (um exame de sangue) se pode detectar marcadores tumorais no sangue.

Tabernero, que em 2018 assumirá a presidência da Sociedade Europeia de Oncologia Clínica (ESMO, na sigla em inglês), conversou com o EL PAÍS por telefone dentro de um trem durante viagem na Alemanha de Heidelberg para Frankfurt. Às vésperas do dia mundial contra a doença, sua agenda não dá trégua. O câncer também não. O médico antecipa algumas das pesquisas realizadas pelo VHIO: “Teremos avanços em imunoterapia e biopsia líquida, e novas subclassificações de tumores”.

Pergunta. Os casos de câncer cresceram 15% em cinco anos e já superam os diagnósticos previstos para 2020. O que está acontecendo?

Resposta. O diagnóstico de casos de câncer aumentou como se esperava e um pouco mais, mas porque a população está envelhecendo, não porque existem mais causas do que as previstas que geram câncer. Os casos aumentam conforme as expectativas, o que ocorre é que nesses anos não se corrigiu variáveis, como a imigração.

“O objetivo é tornar o câncer crônico e muito além disso. Tentamos preveni-lo, que não apareça, diagnosticá-lo precocemente e curá-lo. E onde não pudermos curá-lo, torná-lo crônico”

E também influencia a detecção precoce. O tumor mais frequente é o colorretal, e se colocou em andamento o programa de triagem de sangue nas fezes, e isso faz com que se diagnostique agora os tumores que apresentam [sintomatologia] clínica e também os que não apresentam, os que seriam diagnosticados em dois ou três anos.

P. A medicina personalizada ou de precisão se transformou em um termo recorrente na oncologia. A quimioterapia está com os dias contados?

R. A medicina de precisão é o futuro. Os tratamento dirigidos substituíram a quimio em alguns tumores, como a leucemia mieloide crônica. Também está se estudando muito a imunoterapia, especialmente para ver por que existem células do sistema imunológico que não veem como anormais as células cancerígenas e não atuam contra elas. Mas a quimioterapia continuará tendo seu papel porque em outros tumores será muito difícil conseguir terapias dirigidas e continuará se utilizando a quimio.

P. A estratégia de explodir passa por disparar nos genes em vez de nos órgãos, como até agora?

R. Sim. Dispara-se no órgão através da cirurgia e das diferentes modalidades de radioterapia, mas os tratamento médicos disparam nas alterações moleculares, nas células cancerígenas, independentemente de onde estejam.

MUDAR OS HÁBITOS

Tabernero afirma que uma mudança nos hábitos de vida pode representar uma redução na incidência dos tumores. “Com 10 medidas podemos conseguir deixar fora 40% dos tumores, e sete delas têm custo zero”, diz o oncologista.

“Eliminar o tabaco, limitar o consumo de álcool, combater a obesidade, ter una dieta pobre em gordura e carne vermelha e rica em fibra, fazer exercício e proteger-nos da exposição ao sol. Com essas sete mudanças em nossos hábitos podemos reduzir a incidência do câncer”, afirma o médico. Evitar a poluição, incentivar os programas de vacinação e os de triagem são as outras três propostas que completam as dez, e, apesar de necessitarem de decisões políticas e investimento econômico, também são factíveis, diz Tabernero.

P. O doutor Josep Baselga [oncologista catalão que dirige o Memorial Sloan Kettering Cancer Center, em Nova York] disse há alguns meses que em 20 anos o câncer já não será a causa principal de mortes. É uma afirmação realista ou otimista?

R. É isso, pelos avanços de diagnósticos. O câncer não será curado, mas deixará de ser a primeira causa de morte. Só mudando os hábitos [dieta saudável, não fumar, exercício físico, etc.] se poderia reduzir 40% dos tumores, de forma que deixaria de ser a primeira causa de morte, e as doenças cardiovasculares voltariam a ser.

P. O objetivo é tornar o câncer crônico?

R. Sim, torná-lo crônico, mas muito além disso. Tentamos preveni-lo, que não apareça, diagnosticá-lo precocemente e curá-lo. E, onde não pudermos curá-lo, torna-lo crônico.

P. Existe algum tumor que já tenham conseguido tornar crônico?

R. Sim, a leucemia mieloide crônica. Antes, a sobrevivência era de dois anos e agora existem pacientes que vivem 20. Também algum câncer de pulmão.

P. Os oncologistas costumam monitorar a sobrevivência do câncer por cinco anos, mas, o que acontece com os pacientes que superam essa barreira? Em que condições ultrapassam os cinco anos?

R. Agora já damos prognósticos de 10 a 15 anos em alguns casos, mas na maioria das enfermidades os primeiras anos são críticos para se detectar recidivas.

Há pacientes que ficam com sequelas físicas, como transtornos gastrointestinais, sequidão na boca, cirurgias que resultaram em mutilações, depende do tipo de tumor. E também existem sequelas psicológicas, como o transtorno psicológico do medo. Cada vez há mais programas para ajudar o paciente a enfrentar essa nova vida depois do câncer.




Fonte: El País

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