Segundo infectologistas e ambientalistas, seria necessário monitorar com mais atenção os macacos que vivem nas florestas da Mata Atlântica.

Vacinas contra a febre amarela estão sendo distribuídas para cidades em que há surto da doença (Crédito: André Borges/Agência Brasília)

Vacinas contra a febre amarela estão sendo distribuídas para cidades em que há surto da doença – Crédito: André Borges/Agência Brasília

Por Bárbara Souza

Se as centenas de mortes de macacos nas matas do Espírito Santo e de Minas Gerais tivessem sido observadas antes, teria sido possível evitar o surto de febre amarela nos estados. Essa é uma certeza entre os infectologistas e ambientalistas.

Apesar de saberem quais são as medidas para prevenir problemas como esse, os especialistas reclamam que os meios para colocá-las em prática são escassos. A principal barreira é a falta de monitoramento das florestas.

A coordenadora do programa de saúde silvestre da Fundação Oswaldo Cruz, Marcia Chame, afirma que faltam muitas informações para identificar a morte de animais como macacos, com a antecedência necessária para vacinar a população de risco. ‘Se a gente tivesse relatos anteriores, essa vacinação poderia ter sido feita antes e poderíamos ter diminuído bastante os casos humanos.’

A degradação do meio ambiente é um dos fatores que explicam a contaminação em massa de macacos e, consequentemente, de humanos pelo vírus da febre amarela. A tragédia ambiental de Mariana, em novembro de 2015, provocou um grande desequilíbrio ambiental no entorno do Rio Doce. Por isso, os biólogos da FioCruz e de outras instituições não descartam esse fato como uma das explicações possíveis para o surto da doença.

Quando espécies de anfíbios, peixes e outros animais morrem, a população de mosquitos silvestres tende a aumentar. Falhas na vacinação de pessoas que vivem em locais onde já havia a orientação para a imunização também pode ser a razão da reemergência da febre amarela.

O epidemiologista Guilherme Franco Netto, especialista em Saúde, Ambiente e Sustentabilidade da Fiocruz afirma que aparentemente houve negligência, mas que é necessário investigar as hipóteses mais a fundo. ‘Esse cuidado tem que ser intensificado. Tem que se verificar o que está acontecendo. Existem várias hipóteses que tem que ser testadas.’

Com registros de casos e mortes causadas pela febre amarela em todos os estados vizinhos, o Rio de Janeiro por enquanto é uma exceção no Sudeste do país. Mas o sinal de alerta foi disparado assim que Minas Gerais e Espírito Santo anunciaram o surto da doença.

No fim de janeiro, o Ministério da Saúde enviou 250 mil doses da vacina para serem distribuídas em 16 municípios do Rio. A ideia foi criar uma barreira contra o vírus nas fronteiras com os estados vizinhos. Ainda não foi registrado nenhum caso em território fluminense. Mas para que a situação permaneça sob controle, é fundamental observar a saúde dos macacos, já que o Rio é cercado de matas onde vivem diversas espécies do animal.

O superintendente em Vigilância Epidemiológica do Rio, Mário Sérgio Ribeiro, lembra que atitudes como alimentar os macacos encontrados em matas próximas às cidades é uma péssima ideia, pois atrai o animal para fora do seu habitat. ‘Os primatas são sentinelas. Quando morrem, sinalizam que há alguma coisa errada que pode atingir os homens.’

Além dos guardas florestais, escoteiros e montanhistas, qualquer pessoa pode ajudar. Através de um aplicativo gratuito criado pela FioCruz, o SISS-Geo, é possível mandar fotos e informações sobre a saúde dos macacos.

Já são mais de 150 casos confirmados de febre amarela no Brasil e mais de 50 mortes. Esse é o maior surto desde a década de 1980. Outros picos de febre amarela aconteceram periodicamente no Brasil: em 1993, foram 83 casos registrados; em 1999, foram 76.

A última epidemia da doença no país aconteceu nos anos de 2008 e 2009, com 46 e 47 casos. No ano passado, foram sete registros, com cinco mortes. Vale lembrar que todos esses casos de febre amarela são silvestres, que ocorre quando a doença é transmitida por mosquitos não encontrados nas cidades.

A versão urbana é transmitida pelo Aedes aegypti, mas não há registros dela no Brasil desde 1942, cinco anos depois do início dos testes com a vacina idêntica a que usamos até hoje.




Fonte: CBN

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