Alterações na genética do Influenza dificultam programa de imunização contra a doença.

Todo ano uma vacina inteiramente nova é produzida para combater uma mesma doença: a gripe. E o motivo desse trabalho incessante é a “inteligência” do Influenza, um dos vírus que mais passam por mutações, gerando uma série de subtipos e linhagens, como o H1N1 e o H3N2, ambos pertencentes ao tipo A. Entre um inverno e outro — época em que há mais disseminação dos vírus —, a Organização Mundial da Saúde (OMS) identifica quais foram as três ou quatro estirpes mais comuns em circulação na temporada anterior e, a partir dessas cepas, desenvolve a imunização. Agora, um grupo de cientistas da Universidade de Wisconsin-Madison, nos EUA, defende o uso de sequenciamento genético para encontrar os padrões de mutação dos vários subtipos do vírus da gripe e, assim, preparar a melhor vacina para proteger contra a versão atualizada deles.

Dada a velocidade das mutações do Influenza, é comum surgir uma cepa nova em cima da hora, sem que dê tempo de incluí-la na elaboração da vacina. Isso aconteceu na temporada de gripe de 2015, quando a imunização utilizada mostrou eficácia inferior a 20%, índice muito aquém das expectativas.

Publicado na revista “Nature Microbiology”, o estudo que propõe o novo método de produção aposta que, uma vez identificados os padrões, seria possível prever as futuras mutações do Influenza. O virologista Yoshihiro Kawaoka, líder da pesquisa, analisou o H1N1 — uma nova versão do mesmo vírus que gerou a gripe espanhola em 1918 e a gripe russa em 1977 — e o H3N2, que surgiu na gripe de Hong Kong, em 1968, e vem passando por mutações desde então.

— Podemos identificar as mutações que irão ocorrer na natureza e tornar esses vírus disponíveis, em laboratório, no momento da seleção de cepas para a vacina — aspira Kawaoka.

Para João Toniolo Neto, ex-diretor do Grupo de Vigilância Epidemiológica da Gripe (VigiGripe), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o estudo é promissor, mas precisa passar por mais testes e requer, além de uma integração com a OMS, um grande investimento em tecnologia. E alerta que esse método só conseguirá prever as mutações menores pelas quais os vírus passam todos os anos. Já as maiores, capazes de transformar o vírus, continuarão imprevisíveis, segundo ele.

— O H1N1 do ano passado, por exemplo, se assemelha muito ao deste ano, porque só teve uma mutação menor. Isso faz com que a vacina atual seja muito segura, embora o cenário ideal fosse, é claro, colher esse vírus agora e preparar rapidamente uma vacina com ele, a tempo de usar já. Mas isso não é possível: uma vacina demora entre quatro e seis meses para ficar pronta — conta ele. — Por sequenciamento genético, só é possível prever mutações menores, mas são as maiores que provocam as pandemias. E essas nunca são previsíveis.

Longe de uma versão universal – Alguns cientistas mundo afora investigam a possibilidade de uma vacina universal da gripe, que proteja contra todos os seus subtipos. No entanto, Toniolo Neto ressalta que esse horizonte ainda está distante.

— A vacina universal ainda está muito longe de ser realidade. A ideia mais concreta, hoje, é que passemos a acrescentar cepas à vacina. Antes só tínhamos a trivalente, e este ano temos a tetra. Daqui a pouco devemos ter a pentavalente e assim por diante. Quanto mais cepas, mais as pessoas estarão protegidas — afirma ele.

Diretora médica da Sanofi Pasteur na América Latina, Lucia Bricks explica que cultivar os vírus em laboratório, matá-los e aplicar neles os reagentes recebidos pela OMS, chamados de antígenos — que induzem uma resposta imunológica —, é um processo demorado. Além disso, segundo ela, o risco de erro na previsão sobre as cepas que mais circularão é considerável. Estes aspectos tornam a elaboração e a logística da vacina da gripe “uma dor de cabeça anual”, diz Lucia.

— Ninguém poderia ter certeza, ano passado, de que a cepa que mais circularia em 2016 seria o H1N1. Poderia ser outra, mas que bom que não foi — destaca. — Vírus como o H2N2 já causaram pandemias, mas ninguém sabe por onde ele anda hoje. Também há o H5N1, muito letal e para o qual já existe uma vacina, que só não é usada porque ele não está circulando. Pode sempre haver surpresas, por isso é essencial a cultura da vacinação.

Para a presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações, Isabella Ballalai, a Olimpíada no Rio não deve ajudar a espalhar o H1N1. — Como este ano a temporada de gripe no Brasil começou muito antes do previsto, em janeiro, devemos terminar antes também, não pegando os Jogos Olímpicos. Isso diminui o risco — diz.




Fonte: O Globo

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