Existem no mundo aproximadamente 40 classes de antibióticos, a última delas registrada em 1987. De lá para cá, as bactérias vem desenvolvendo resistência a muitas delas, especialmente por conta do uso indiscriminado desses medicamentos.

A guerra contra as superbactérias ganhou um capítulo importante ontem, com a publicação na revista “Nature” de uma pesquisa que revela o método usado por esses micro-organismos para resistir aos antibióticos que temos hoje no mercado. O estudo explica que as superbactérias são reforçadas por uma espécie de barreira que fica do lado de fora da célula, como uma membrana externa, impedindo que medicamentos entrem nela e façam efeito. O grande achado dos pesquisadores foi descobrir o ponto fraco dessa barreira: ela é formada por uma engrenagem de proteínas, que para de funcionar quando uma de suas peças é deslocada.

Desenvolvido pela Universidade de East Anglia, no Reino Unido, o estudo analisa a Escherichia coli, da classe das bactérias gram-negativas — aquelas com membrana interna e externa, enquanto as gram-positivas têm somente uma interna. Com esse reforço na parede celular, as bactérias gram-negativas são muito mais difíceis de serem tratadas e podem causar doenças como meningite e cólera. Nem todas se transformam em superbactérias, mas elas são as que mais causam infecções hospitalares, sendo, por isso, as mais preocupantes para os médicos.

A E. coli, especificamente, é capaz de provocar pneumonia, doenças respiratórias e infecção urinária — cerca de 80% dos casos desse tipo de infecção, por exemplo, são causados por E. coli. Ela é fundamental para a nossa sobrevivência, sendo uma das bactérias mais importantes do sistema gastrointestinal, mas justamente por ser tão prevalente no nosso organismo, pode adquirir resistência com mais facilidade.

Na membrana externa dessa bactéria, os pesquisadores encontraram o que chamaram de complexo BAM, sigla em inglês para mecanismo de montagem barril beta, nome que se refere à forma adotada pelas proteínas. Esse complexo é o responsável por abrir ou fechar “portões” na membrana, permitindo ou não que moléculas entrem na célula. Os cientistas britânicos foram os primeiros a descrever como esse complexo é dividido em cinco partes — chamadas de BamA, BamB, BamC, BamD e BamE — e como essas subunidades trabalham juntas para controlar o que a bactéria absorve.

— Nossa pesquisa mostra o complexo BAM inteiro, nos estágios inicial e final — destaca o principal autor do estudo, Changjiang Dong, da Faculdade de Medicina da Universidade de East Anglia. — Descobrimos que as cinco subunidades formam uma estrutura em forma de anel que trabalha em conjunto para inserir proteínas na membrana externa por meio de um mecanismo de rotação.

Segundo ele, a descoberta abre caminho para a criação de uma nova classe de antibióticos, capazes de burlar essa engrenagem.

— O complexo BAM é absolutamente essencial para as bactérias gram-negativas sobreviverem. Interromper esse mecanismo de defesa faz com que o antibiótico penetre na célula e a mate. Agora, temos que fazer testes para descobrir antibióticos que possam fazer isso — afirma ele.

Existem no mundo aproximadamente 40 classes de antibióticos, a última delas registrada em 1987. De lá para cá, o corpo humano vem desenvolvendo resistência a muitas delas, especialmente por conta do uso indiscriminado desses medicamentos, sem prescrição médica adequada.

— Este é um desafio de saúde global. Muitos antibióticos atuais estão se tornando inúteis, o que causa centenas de milhares de mortes a cada ano. O número de superbactérias aumenta a um ritmo inesperado — avalia Dong.

Surtos de infecções hospitalares por superbactérias têm ocorrido com certa frequência no Brasil pelo menos desde o início desta década. O primeiro caso a chamar atenção foi no Distrito Federal, em 2010, quando 163 pacientes foram contaminados em hospitais diferentes e 18 deles morreram. Todos por causa da superbactéria KPC, que também é gram-negativa.

Os olhos da comunidade médica internacional estão cada vez mais voltados para este problema, que, de acordo com um relatório encomendado pelo governo britânico e divulgado em meados do ano passado, deve custar a vida de 10 milhões de pessoas por ano a partir de 2050, caso as pesquisas não consigam avançar na produção de novas drogas. Segundo o documento, as perdas econômicas totalizariam US$ 100 trilhões, de 2014 a 2050.

Para Carlos Kiffer, pesquisador do Laboratório Especial de Microbiologia Clínica da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a estrutura da membrana externa de outras bactérias gram-negativas que tendem a ser resistentes, como a KPC, deve ser parecida com a descrita pelo estudo. Sendo assim, a pesquisa ajuda a entender melhor a “arquitetura” de todas essas bactérias, um importante passo para combatê-las.

Pode parecer contraditório que superbactérias formadas a partir do uso excessivo de antibióticos sejam atacadas com mais antibióticos. No entanto, segundo o professor, são necessárias novas drogas — ou novas formulações para as que existem — para tratar os tipos de resistência que já temos e, em paralelo, passar a consumir esses medicamentos com cuidado, na dose certa e seguindo o tratamento até o fim. Isso tornaria nosso corpo menos propício a criar resistência.

— De certa forma, existe um círculo vicioso, mas necessário. A Humanidade ainda precisa de antibióticos, a questão é o uso racional deles — pontua Kiffer. — Além dos remédios que ingerimos, um grande problema é que muitos alimentos também são repletos de antibióticos. Para que os vegetais não tenham determinado tipo de fungo ou para que os frangos cresçam rapidamente, pagamos com nossa própria saúde. Seria preciso uma legislação que proibisse isso.




Fonte: Jornal Extra e Loucos Pela Farmácia

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