Dirigir um veículo é uma atividade tão rotineira na vida das pessoas que muitos ignoram os riscos envolvidos nessa operação. Na verdade, dirigir é a atividade mais complexa, mais exigente e mais arriscada realizada no dia a dia. Afinal, envolve fatores ambientais (condições climáticas, condições das vias de circulação), fatores veiculares (estado de manutenção e funcionamento dos veículos) e fatores humanos (habilidade do motorista em perceber o perigo, decidir o que fazer e executar a ação).
Estudos comprovam que os erros humanos são a causa mais comum de acidentes de trânsito.
Basicamente, são necessárias três funções para uma direção segura: visão, cognição (atenção, memória, raciocínio e vigilância) e função motora (força e mobilidade).
Esses fatores permitem a percepção de perigos, tomada de decisão e reação. Alterações nessas características, seja pelo processo de envelhecimento, doenças, fadiga, distração, estado emocional, uso de drogas ilegais, álcool ou medicamentos, podem levar a acidentes.
Existem diversos estudos sobre a influência negativa de medicamentos sobre as habilidades necessárias para uma direção segura no trânsito. Para alguns grupos farmacológicos, embora tenha havido correlação entre o uso e a ocorrência de acidentes, não é possível concluir que essa correlação tenha sido determinante. Para outros grupos, destacados a seguir, esta é bem definida:

Benzodiazepínicos
O efeito adverso mais comum dos benzodiazepínicos é sedação, mas podem ocorrer visão borrada, visão dupla, tontura, fadiga, alterações na memória, diminuição da coordenação motora, perda na atenção, concentração e reflexos.
Pode-se considerar que essa classe seja a mais estudada em relação aos seus efeitos sobre motoristas. Artigo publicado pela Associação Brasileira de Medicina de Tráfego lista uma série de estudos em que atividades psicomotoras, como tempo de reação para frenagem e manutenção do veículo na via, foram prejudicadas pelo uso de benzodiazepínicos.
Quando se considera o uso de benzodiazepínicos, deve-se levar em conta aspectos farmacocinéticos de cada fármaco, como seu tempo de meia-vida. Dependendo desse valor, há maior ou menor depressão da atividade cerebral e piora na vigilância, com efeitos cumulativos ou mesmo residuais, que podem persistir até o dia seguinte após a administração noturna do medicamento. Exemplos de benzodiazepínicos de longa duração, mais propensos a causar esse tipo de reação, incluem diazepam, flurazepam e clorazepato. Por outro lado, benzodiazepínicos de curta duração, como estazolam, lorazepam e alprazolam, são metabolizados e eliminados antes do horário da administração da próxima dose e, assim, têm menor probabilidade de causar prolongamento da sedação e depressão do Sistema Nervoso Central.
Uma análise do desempenho de motoristas na manhã seguinte ao uso de benzodiazepínicos demonstrou equivalência àquele de motoristas com níveis alcoólicos no sangue de 0,05% a 0,1%. Para efeitos de comparação, o nível alcoólico sanguíneo máximo permitido pelo Código de Trânsito brasileiro é de 0,6g/L (correspondente a 0,06%).
No entanto, foi demonstrada tolerância aos efeitos de sedação, principalmente de “ressaca” no dia seguinte. Os prejuízos no desempenho do motorista foram sentidos apenas nas três primeiras semanas de uso, quando se consideram desvios laterais nas rodovias, e apenas na primeira semana, quando se leva em consideração o controle da velocidade. Assim, diz-se que o risco ocorre principalmente nas duas primeiras semanas de tratamento, diminuindo a partir da terceira semana. Mesmo assim, alguns autores acreditam que o risco de envolvimento em acidentes automobilísticos associado ao uso de benzodiazepínicos chega a ser de duas a cinco vezes maior.
Barbitúricos
Os barbitúricos são sedativos e podem causar visão borrada. Doses agudas diminuem o desempenho em testes de coordenação; e já foi observado que, quanto mais complexo é o teste, menor é a dose necessária para que haja uma redução na performance do paciente. Assim, aqueles que necessitam fazer uso de barbitúricos devem ser aconselhados a primeiramente verificar como o seu organismo reage ao medicamento, para só então dirigir ou realizar qualquer tarefa que seja perigosa em caso de tontura ou falta de atenção.
Pesquisadores observaram que essa classe (especialmente o pentobarbital) produz efeitos semelhantes ao do etanol em exames psicomotores e cognitivos. Estes foram os fármacos associados ao maior risco de colisão de veículos: 7,5 – o que significa que pacientes em uso de barbitúricos podem ter um risco mais de sete vezes maior de se envolver em acidentes de trânsito do que aqueles que não fazem uso.
Antidepressivos
O prejuízo no desempenho de motoristas é bem documentado para os antidepressivos tricíclicos, como amitriptilina, nortriptilina e imipramina, sendo associados a riscos 41% maiores de envolvimento em acidentes automobilísticos. Pesquisadores concluíram que doses agudas dessa classe de antidepressivos são comparáveis a concentrações sanguíneas de etanol de 0,8g/L (0,08%) sobre a capacidade do motorista em se manter na mesma pista. No entanto, os efeitos sobre a condução de veículos não foram significativos após o uso regular (uma semana) ou quando a medição foi feita na manhã seguinte à administração noturna dos fármacos.
As novas gerações de antidepressivos são consideradas mais seguras, a não ser quando utilizadas em altas doses. O uso de inibidores seletivos de recaptação de serotonina (como fluoxetina, paroxetina, sertralina e citalopram), trazodona, venlafaxina ou bupropiona traz riscos mais leves em relação aos antidepressivos tricíclicos. Porém, uma vez que podem causar, em maior ou menor grau, sedação, ansiedade, insônia, fadiga, tremores, agitação, entre outros, é recomendado que não se conduzam veículos até se ter certeza de que o medicamento não afeta o desempenho.
Anti-histamínicos
Os anti-histamínicos são utilizados em distúrbios do movimento (ou cinetose), vertigem, náusea e condições alérgicas, como rinites, problemas respiratórios e pruridos. Por sua ampla utilização, o risco sobre a segurança dos motoristas deve ser ressaltado.
Os chamados anti-histamínicos de primeira geração, como difenidramina, dimenidrinato,
clorfeniramina, clemastina, bronfeniramina e hidroxizina, são pequenas moléculas lipofílicas, que conseguem atravessar a barreira hematoencefálica e têm afinidade pelos receptores H centrais. Assim, bloqueiam os mecanismos mediados por histamina relacionados ao ciclo de sono e despertar e causam efeitos anticolinérgicos.
Muitos dos anti-histamínicos de primeira geração possuem meias-vidas longas, o que leva esses efeitos indesejáveis a estarem presentes mesmo no dia seguinte à administração do fármaco, causando “ressaca anti-histamínica”.
Além disso, por causarem sedação, essa classe de medicamentos acaba interferindo na arquitetura normal do sono noturno, o que pode causar sono durante o dia e cansaço extremo.
Já os anti-histamínicos de segunda ou terceira geração, como cetirizina, loratadina e fexofenadina, são moléculas maiores e menos lipofílicas, tendo pouquíssima penetração no Sistema Nervoso Central. Sua ação principal se dá nos receptores H periféricos, melhorando muito o perfil de efeitos adversos. São considerados não-sedativos nas doses usuais, apesar de causarem sedação em doses mais altas do que as recomendadas.
De maneira geral, sem separação em categorias, os anti-histamínicos causam um risco 55% maior de acidentes veiculares. 89% dos estudos avaliando anti-histamínicos de primeira geração demonstraram impacto negativo sobre a capacidade dos motoristas, contra somente 10% dos estudos avaliando anti-histamínicos de segunda geração.
Em resumo, o impacto de anti-histamínicos sobre a condução de veículos é dose-dependente e está intimamente correlacionado aos efeitos sedativos dos anti-histamínicos de primeira geração, que influenciam mais o desempenho dos motoristas do que os anti-histamínicos de segunda ou terceira geração.
Opioides
A classe dos opioides inclui fármacos semi-sintéticos (oxicodona, hidrocodona), sintéticos (meperidina, metadona, fentanil, tramadol) e alcaloides do ópio (morfina, codeína). Entre seus efeitos adversos, tem-se tontura, sonolência, fraqueza e alterações visuais.
Estudos têm comprovado uma probabilidade 2,2 vezes maior de envolvimento em acidentes com motoristas que utilizam algum analgésico opioide, quando comparado aos motoristas que não utilizam. Demonstram redução na capacidade psicomotora, especialmente em doses agudas e em pacientes que começaram a fazer uso de opioides recentemente. De fato, alguns autores acreditam que pacientes que estejam já estabilizados podem conduzir veículos, sem maiores problemas, durante o dia e em boas condições de visibilidade.
Desse modo, a recomendação é de que se evite dirigir veículos por quatro a cinco dias após início do tratamento ou alteração na dose do opioide quando este é utilizado sozinho.
Relaxantes Musculares
Fármacos incluídos na classe de relaxantes musculares, como ciclobenzaprina, carisoprodol e orfenadrina, podem causar tonturas, sonolência, diminuição na atenção, visão turva e ataxia. Seu uso tem sido associado a um risco duas vezes maior de envolvimento em acidentes.
Quando usado em doses únicas, o carisoprodol geralmente não traz problemas, pois possui meia-vida curta (aproximadamente 100 minutos). Entretanto, com o uso crônico ou em pacientes com alterações no fígado ou nos rins, seus efeitos sobre o desempenho psicomotor são mais pronunciados.
Estimulantes do Sistema Nervoso Central
Os estimulantes do Sistema Nervoso Central, como femproporex, anfepramona, mazindol e metilfenidato, estão associados a efeitos que podem ser muito prejudiciais à direção segura de veículos: sensação de autoconfiança aumentada, nervosismo, ansiedade e insônia. Além disso, pode ocorrer midríase, o que prejudica a direção noturna, pois a luz dos faróis pode ofuscar a visão do motorista.
Estudos brasileiros mostram a alta prevalência do uso de anfetaminas por parte dos motoristas de caminhão, buscando especialmente um de seus efeitos adversos: redução do sono e diminuição da sensação de cansaço. No entanto, os “rebites” também podem provocar palpitações, arritmias cardíacas, agitação, tremores, vertigem, irritabilidade, fraqueza, confusão, delírios e alucinações. Há vários relatos de motoristas que, sob efeito dos “rebites”, param seus caminhões no meio da pista ou invadem a pista contrária devido a alucinações causadas pelo medicamento.
Seus efeitos podem durar de seis a oito horas. Também deve-se atentar para o fato de que a estimulação central ocorrida pelo uso desses fármacos é geralmente seguida por fadiga e depressão, levando à sonolência.
Outros
Teoricamente, medicamentos que alteram a pressão arterial e os níveis plasmáticos de glicose sanguínea também podem afetar a habilidade em dirigir veículos.
Foram estudados os seguintes grupos de anti-hipertensivos: diuréticos, inibidores de enzima conversora de angiotensina (ECA) e bloqueadores de canais de cálcio. Todos esses grupos tiveram um aumento na probabilidade de acidentes entre 20% e 40%, principalmente devido a efeitos relacionados às suas propriedades hipotensoras, como tontura, fadiga e fraqueza. Fármacos de ação central, como metildopa, podem causar insônia, confusão e nervosismo e foram associados às maiores taxas de envolvimento em acidentes: 79%.
Dentre os hipoglicemiantes, a insulina foi considerada o agente com maior risco associado: 80% mais risco de acidentes, em comparação com os demais fármacos, cujo aumento ficou entre 35% e 50%. Entretanto, parece que o risco não está relacionado aos efeitos dos fármacos em si, mas ao correto cumprimento do tratamento do diabetes. Crises hipoglicêmicas, geradas por excesso de medicação ou falta de uma refeição, por exemplo, causam tremores, tontura, confusão mental, dificuldade de concentração, fraqueza, convulsões e até inconsciência. Por sua vez, a hiperglicemia, efeito inverso, pode levar o paciente a sentir visão turva, fraqueza e diminuição da consciência. Ou seja, para pacientes que fazem uso de hipoglicemiantes, a direção de veículos de maneira segura inclui o controle rigoroso da glicemia.
A Anvisa – Agência Nacional de Vigilância Sanitária -, através da Resolução de Diretoria Colegiada (RDC) nº 47, de 08 de setembro de 2009, determina que as informações sobre a influência dos medicamentos sobre a direção de veículos sejam expressas na bula. Entretanto, muitos ignoram a informação de que os medicamentos possam causar tontura ou sonolência. Então, a Federação Internacional de Farmacêuticos – FIP (Fédération Internationale Pharmaceutique) sugere que, com ações simples de orientação, o farmacêutico pode contribuir para a segurança dos seus pacientes, diminuindo a probabilidade de que se envolvam em acidentes de trânsito:
– Explicar os efeitos que cada medicamento pode ter sobre a habilidade de condução de veículos;
– Informar, quando adequado, que a ingestão de bebidas alcoólicas pode potencializar essa influência;
– Aconselhar a administrar a maior parte da dose diária próxima do horário de dormir, quando possível;
– Ajudar o paciente a reconhecer sinais de que sua habilidade pode estar comprometida.
Sinais de alerta: Evitar a condução de veículos se sentir
– Dificuldade de concentração
– Fadiga
– Ardência nos olhos ou lacrimejamento intenso
– Visão dupla ou borrada
– Desmaios
– Sedação
– Lentidão nos movimentos
– Formigamento ou tremores
– Espasmos musculares
– Esquecimentos
– Distúrbios no sono (dificuldade em adormecer ou em continuar dormindo)
– Alucinações
– Confusão mental
– Vertigens
– Sonolência
– Tontura

 


Fonte: Boletim do Centro de Informações sobre Medicamentos do Conselho Regional de Farmácia do Estado do Paraná

Blog Farmacêutica Curiosa

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