Principais matérias-primas dos anabolizantes vêm direto da China e Índia ou entram pelo Paraguai. Produto, proibido no Brasil, pode causar câncer.

Imagina uma coisa: se tomar anabolizantes sem critério, sem orientação médica é perigoso, muito pior é usar produto falsificado, pirata. O Fantástico investigou esse comércio clandestino, que tem conexões na China e no Paraguai e abastece laboratórios caseiros espalhados pelo Brasil.

“No ambiente da academia todo mundo quer ficar com o corpo bonito e musculoso”, diz um aluno.

“Está todo mundo buscando um caminho curto para ter o corpo perfeito”, conta um homem.

“Todo mundo dizia: essa menina está tomando bomba”, lembra uma mulher.

Um novo negócio invade o submundo das academias. São laboratórios clandestinos, caseiros, como um, dentro de um quarto em Porto Alegre, ou como um outro, mais bem equipado, no Rio de Janeiro. Uma rede que fatura alto com a fabricação de anabolizantes piratas.

“Embora esses laboratórios clandestinos sejam comprovadamente localizados no Brasil, todos os produtos por eles fabricados vêm etiquetados como se fossem feitos fora do Brasil, geralmente em espanhol ou inglês, México ou Estados Unidos”, conta o delegado Polícia Federal Bruno rigotti.

A operação da Polícia Federal fechou outros dois laboratórios e prendeu 18 pessoas. O negócio movimentava, por mês, R$ 1 milhão.

“Além disso, foram sequestrados bens e imóveis de alto padrão a maioria localizado em bairros nobres do Rio de Janeiro avaliados em mais de R$ 10 milhões”, afirma o delegado federal.

As principais matérias-primas desses anabolizantes vêm diretamente da China e Índia ou entram pelo Paraguai. O repórter Fábio Almeida foi até Cidade Del Leste, fronteira com Foz do Iguaçu, para mostrar a venda ilegal.

Repórter: Preciso de sal pra fabricação de anabolizante. Não pronto, pra fabricar, pra aumentar.
Vendedor: Chega aí. Aqui a gente vende de tambor, de 25 quilos.
Repórter: Quanto?
Vendedor: Mil reais o quilo.

Não foi difícil encontrar quem oferece o produto, inclusive com entrega no Brasil.

Repórter: Cipionato de testosterona em pó tem?
Vendedor: Tem. Você só me dá um toque, ‘tô aqui em tal lugar’, que eu vou mandar o motoqueiro ir em tal lugar.

O cipionato de testosterona, uma versão sintética do hormônio masculino, é uma das substâncias mais usadas na fabricação de anabolizantes, e é proibido no Brasil. Os homens que vendem o cipionato também oferecem outras drogas e até armas.

Repórter:  Outra coisa? Armas, drogas, 38 (revólver), 9mm (pistola)?
Vendedor: Esta você tem interesse? Maconha, pó, pedra?

Um outro vendedor diz que a procura foi tanta que o cipionato em pó acabou.

Repórter: Não tem?
Vendedor: Tem um cara de São Paulo que levou muito, entendeu? Compensa pra ele, ele falou.
Repórter: Fabrica lá?
Vendedor: Compensa pra ele, ele falou?

O vendedor anota o contato do nosso repórter e dias depois, manda uma foto da amostra do produto. Por telefone, insiste em fechar negócio. A mercadoria seria entregue de caminhão no Rio Grande do Sul.

Vendedor: Eu tenho galão de 25 quilos. Quantos quilos ele vai querer? Quarta-feira o caminhão vai levar trigo vai até Taquari. E você tem que pegar a mercadoria ali. Mas você tem que falar pra mim com certeza, porque eu tenho que falar com o caminhoneiro hoje à noite.

O produto ilegal vai dentro de caminhões escondido em lâmpadas, aparelhos eletrônicos, filtros de água e, o que é mais comum, em potes de suplementos.

A matéria-prima vai para laboratórios caseiros, como os que foram descobertos no Rio Grande do Sul. E nesses laboratórios o pó de testosterona é manipulado e misturado a outras substâncias, como óleo de girassol ou de amendoim, para fabricar os anabolizantes piratas.

“Ele tinha marca, tinha uma embalagem, uma etiqueta com prazo de validade, com endereço da empresa. Tudo falso, claro”, conta o delegado da Polícia Civil do RS, Mário Souza.

Não há qualquer tipo de controle sanitário. O que também é fora da lei.

“Além do risco do anabolizante em si, a pessoa está exposta ao risco dos contaminantes biológicos e também dos contaminantes químicos. Todos os resíduos então provenientes dessa falta de controle durante a fabricação ou mesmo da compra da matéria-prima utilizada”, explica a toxicologista da PUC-RS Flavia Thiesen.

E como os anabolizantes chegam aos usuários? Boa parte desse comércio acontece pela internet. Nosso repórter se infiltrou em fóruns e redes sociais, em grupos secretos, onde só entra quem tem convite. Os traficantes negociam os anabolizantes piratas a preços mais baixos.

Em uma conversa, o vendedor diz: “Os manipulados que tenho são cozinhados em São Paulo e enviados pra mim. São de confiança e eu os utilizo em meus ciclos”.

“O preço não é tão importante, o importante é a confiança no produto que está indicando”, afirma o delegado federal.

Fora do mundo virtual, a distribuição é na base do boca-a-boca em academias.

“Dentro das academias é a maneira mais fácil de se conseguir um anabolizante. Geralmente sempre tem um entendido que mistura substâncias e te fornece”, diz uma mulher que não quis ser identificada.

Os anabolizantes, tanto os piratas quanto os originais, contêm testosterona sintética ou derivados. Testosterona é o hormônio masculino, e o anabolizante feito a partir dele pode ser ingerido, em comprimidos, ou injetado. Por causa da dose extra de hormônio, as células acumulam água. O metabolismo fica acelerado, e isso potencializa o resultado dos exercícios físicos. A pessoa ganha muita massa muscular. Mas existem vários efeitos colaterais.

“Efeitos adversos mais comuns são efeitos menores: atrofia do testículo nos homens, mudanças no padrão da voz em homens e mulheres, aumento a oleosidade da pele, crescimento inadequado de pelos. Podem ocorrer inúmeras mudanças de comportamento, como aumento da agressividade e outras alterações”, explica o médico cardiologista Anderson da Silveira.

E mais: o usuário pode ter problemas graves de coração, de fígado, rins, ficar impotente ou até desenvolver um câncer. Risco que pode levar à morte. Foi que aconteceu com Tainá. Dá para perceber a diferença nas fotos da jovem.

“Através de amizades, em academia em academia, a gente notou que as pernas dela estavam muito grossas. Todo mundo dizia: ‘Essa menina está tomando bomba, as pernas engrossando, engrossando’”, lembra Isabel da Costa, mãe de Tainá.

Isabel conta que um dia a filha chegou em casa com dor de cabeça e foi se deitar.

“Eu só ouvi o grito, quando eu corri pro quarto ela estava desmaiada”, lembra Isabel da Costa.

A jovem foi levada às pressas para o hospital.

“Quando o médico olhou para ela e para mim ele disse: ‘Mãe, que remédio essa menina tomou?’. Eu disse: ‘Doutor, eu não sei’”, conta Isabel Cristina da Costa.

Tainá Barbosa morreu aos 24 anos.

“O coração dela, o médico disse, que era de um velho de 70 anos, ela teve duas paradas cardíacas”, diz Isabel Cristina da Costa.

Em casa, no quarto da filha, Isabel encontrou anabolizantes.

“O que matou ela foram esses remédios aí”, afirma Isabel Cristina da Costa.

Os anabolizantes não podem ser usados para fins estéticos, para ajudar na malhação. Mas eles são indicados em outros casos, quando um paciente precisa de reposição hormonal, por exemplo. Sempre com indicação médica.

“Estão indicados em algumas doenças herdadas em que nosso organismo não produz adequadamente esses hormônios”, explica o médico Anderson da Silveira.

Até para fins medicinais, vários tipos de anabolizantes são proibidos no Brasil e a venda é considerada tráfico.

“Se forem trazidos para o Brasil e vendidos, ou produzidos no Brasil, as pessoas serão enquadradas na lei de drogas”, afirma o delegado Mário Souza.

E se já é arriscado abusar dos anabolizantes industrializados, qual é o risco para a saúde de tomar um produto pirata?

“Esses subprodutos a gente não conhece o efeito. Pode ser que eles não tragam nenhum mal à saúde, mas pode ser ainda que eles sejam mais tóxicos do que o próprio anabolizante”, diz a toxicologista Flavia Thiesen.

No Rio Grande do Sul, a polícia prendeu em flagrante 14 pessoas. Entre elas estavam personal trainers, estudantes de Educação Física e de Nutrição. Todos frequentavam academias de classe média em Porto Alegre. Além de produtos e equipamentos para fabricar anabolizantes piratas, foram apreendidos veículos avaliados em meio milhão de reais.

Os presos vão responder por tráfico, associação para o tráfico e posse de objetos para fabricação de drogas. A pena somada pode chegar a 35 anos de cadeia. O líder da quadrilha que agia na região Sudeste, considerado o maior importador de anabolizantes do país, também foi preso.

A Polícia Federal acredita que 50 revendedores ainda estejam atuando hoje espalhados por vários estados brasileiros.

“Considerando que existe um mercado consumidor muito grande, que a venda desse produto gera muito lucro, acreditamos que existirá a continuidade da produção e comercialização desses produtos”, afirma o delegado federal Bruno Rigotti.

Mesmo com problemas no fígado, uma mulher diz que não vai deixar de usar anabolizantes.

“Porque mesmo sabendo dos efeitos negativos que o anabolizante tem sobre o meu organismo, aparentemente em frente ao espelho eu gosto do resultado que ele traz para mim”, diz a usuária.


Fonte:G1

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